11 de agosto de 2019

BUCHA VEGETAL, a trepadeira da higiene e limpeza

Certa manhã,  enquanto eu capinava o invasor capim braquiária nos fundos de meu terreno, descobri uma planta que logo chamou-me a atenção. Parecia um pé de cabaça, que a partir do brejo foi se esparramando por cima do capim. Como havia plantado cabaças em anos anteriores achei que aquele pé pudesse ser de alguma semente caída ao acaso. Nas semanas seguintes ele se esticou, cresceu  e logo trepou na cerca de arame farpado. Depois de poucos dias floresceu e conforme o fruto foi crescendo, descobrí  se tratar de um pé de Bucha-Vegetal! Fui pesquisar para descobrir quais usos eu poderia ter com essa curiosa fibra em meu atelier, e acabei descobrindo coisas maravilhosas sobre esta espécie, a Luffa aegyptiaca,  a bucha-vegetal que trato nesta postagem.   

Pé de Bucha-vegetal com frutos verdes sobre o pasto


A bucha-vegetal  é uma planta trepadeira da família das cucurbitáceas (a mesma da abóbora, melão, pepino e chuchú) pertencente ao gênero Luffa. São reconhecidas quatro espécies de bucha ao redor do mundo: Luffa cylindrica, Luffa aegyptiaca, Luffa acutangula e Luffa operculata. Suas folhas são grandes, ásperas e verde escuras, que lembram a forma de uma mão aberta. Possui flores amarelas e seus frutos se assemelham ao pepino. De acordo com a espécie os frutos apresentam tamanhos variados, podendo medir desde 5 cm a até mais de um metro de comprimento. Eles são cilíndricos, alongados e podem ser lisos ou angulosos.

Fruto da Bucha-vegetal ainda verde
 A Luffa aegyptiaca mede entre 20 e 30cm de comprimento


Fruto verde da Bucha-vegetal (Luffa acutangula)
Luffa acutangula com tamanho médio de 30cm


Fruto da Bucha-vegetal (Luffa cylindrica) na cerca
Bucha-de-metro (Luffa cylindrica) chega a 1,20 m

A Luffa operculata com frutos de apenas 5cm
Buchinha-do-norte (Luffa operculata) com apenas 5cm é altamente tóxica

A Bucha Vegetal é natural dos continentes africano e asiático e também é conhecida como Esponja-Vegetal, Bucha-dos-Paulistas, Bucha-dos-Pescadores, Bucha-dos-Caçadores, Abobrinha-do-Norte, Maxixe-do-Pará, Pepino-Bravo, Purga-dos-Paulistas, Purga-de-João-Pais, Cabacinho, Cabacinha, Esfregão, Fruta-Cocta, Fruta-dos-Paulistas, Gombô-Grande, Mamalongo e Quingombô-Grande. Em outros idiomas é conhecida como: Spongo (Esperanto), Pashte (Guatemala), Susemi (Coréia), Loufa (França), Musú (República Dominicana), Paste (El Salvador). Em inglês, pode ser conhecida como bath sponge, angled luffa, ridge gourd, ridged luffa, chinese okra, sponge gourd ou towel gourd.


NA HIGIENE PESSOAL, LIMPEZA, ALIMENTAÇÃO, MEDICINA E ARTESANATO.


No banho.   A bucha vegetal é cultivada especialmente pelas fibras do seu fruto seco, pois essas fibras são finas, resistentes, elásticas e macias sendo usadas principalmente como esfregão de banho.  Hoje é uma matéria prima importante e bastante valorizada no setor cosmético, para a produção de sabonetes e esponjas, entrando como esfoliante natural, eliminando células mortas, limpando, abrindo os poros e ativando a circulação sanguínea. Não deve ser utilizada todos os dias pois ao se retirar excessivamente as células mortas da pele, ela pode ficar muito sensível e propensa a irritação. Recomenda-se a sua utilização, no máximo duas vezes na semana. 

moça no banho de bucha

CUIDE DA SUA BUCHA

Também alguns cuidados devem ser tomados com a sua bucha pois elas podem passar a abrigar e transmitir algumas bactérias nocivas como a Pseudomonas aeruginosa, responsável por muitas infecções hospitalares, como afirma Karlla Patrícia, bióloga com mestrado e doutorado pela URFJ:
"A umidade do banheiro, juntamente com a pouca circulação de ar e o emaranhado de fibras da bucha compõem um ambiente ideal para cultivo e proliferação desta bactéria. No início do uso, as buchas podem ser consideradas higiênicas, pois até que as fibras percam toda propriedade bioquímica, as bactérias tendem a se afastar. O problema é que todo mundo espera que a bucha fique molinha, quando é mais agradável de usar na pele. É nesta fase que a bactéria nos recantos da matriz fibrosa da bucha e domina tudo. Cada vez que a bucha é molhada os organismos se proliferam mais.
Achando que está se limpando com um sabonete cheiroso, você na verdade está esfregando bactérias no corpo podendo desencadear uma infecção estafilocócica. Sim, nosso corpo possui uma barreira contra as bactérias indesejáveis, no entanto, qualquer ferida (até mesmo um cutícula retirada da unha) pode se infestar com esta bactéria. Os especialistas garantem que se deve tomar algumas medidas simples, diminuindo a festa bacteriana na sua bucha.

1 – Deixe a bucha secar completamente entre um banho e outro. Antes disso lave-a com sabão e enxague abundantemente. O ideal é que seque ao ar livre ou no sol.
2- A janela do banheiro e a porta do box precisa estar sempre aberta.
3- Se a bucha mudar de cor, tiver mau cheiro ou ficar gelatinosa, significa que existe uma cultura farta de bactérias. Troque a bucha.
4- Uma ideia legal para ser feita de vez enquanto, é colocar sua bucha no micro-ondas. Já ficou comprovado que este aparelho é um ótimo bactericida.
5- Poderá também banhar sua bucha regularmente em uma solução de 5% de água sanitária"

uma Esponja de banho feita com bucha vegetal

Assim a bióloga em sua publicação, atenta para os cuidados necessários (e que quase ninguém tem) com o uso de suas buchas no banho. Acrescento ainda que também pode-se fervê-la em água por alguns minutos uma vez por semana e supondo-se que seja utilizada diariamente, deve ser descartada e substituída a cada 3 semanas. 

Pra lavagem de louça  é mais barata, não risca e é bem mais difícil de ser contaminada do que uma esponja sintética tradicional, de plástico poliuretano obtido a partir do petróleo e que ao ser descartada, torna-se um poluente de difícil degradação. Ao contrário, é um produto biodegradável e, por isso, é a opção mais sustentável a ser utilizada no dia-a-dia, além de contribuir política e socialmente uma vez que são produzidas pela agricultura familiar.

Amplo uso no artesanato
Na indústria e artesanato, inteira, cortada ou prensada, o seu uso é bastante diversificado. A esponja prensada é largamente utilizada na confecção de artefatos de banho, praia e limpeza, como luvas de massagem e esfregões. Na indústria, suas fibras entram na fabricação de filtros, em isolamento acústico e como bucha de carga para tiros. Já no artesanato seu uso também é amplo e pode até ser esculpida. É usada na confecção de chapéus, chinelos estimulantes da circulação sanguínea, palmilhas para sapatos, cestos, bolsas, flores, bonecas, presépios entre outros e no setor automotivo é empregada na forração dos estofamentos de bancos dos veículos.

Como alimentação.  Os pequenos frutos verdes (menores que 6 centímetros), formados pouco tempo depois que ocorre a fecundação da flor, são comestíveis e bastante apreciados no meio rural em refogados, cozidos e saladas, como fazemos com a abobrinha, chuchú e também o pepino.

Bucha pequena no tamanho em que é comestível

Na China, Filipinas e em vários países asiáticos este fruto é cultivado, vendido e consumido como um legume qualquer. Tem sabor suave como chuchu ou caxi, mais suave que maxixe. Com ele se fazem sopas, frituras, refogados, bolinhos, mas o miolo escavado do fruto também aceita recheios para gratinar ao forno. Pode ainda virar suflê, cremes e qualquer prato em que ele possa entrar no lugar do chuchu ou do maxixe. E como é crocante e agradável no sabor, pode até ser comido cru em saladas ou em conserva, como chuchu ou pepino. As sementes molinhas estão encravadas na polpa e não precisam ser tiradas.
Também dependendo da variedade, os frutos podem ter um leve amargor - contem um princípio amargo de nome luffeína. São nutritivos, ricos em minerais como cálcio, ferro e fósforo, além de vitaminas, como outros legumes da mesma família. E não só os frutos são comestíveis como também os brotos, usados como cambuquira

Uso medicinal.   As propriedades e utilidades da bucha vão ainda mais além! Quando cultivada, as folhas, frutos e sementes são usadas para fins medicinais na prevenção de doenças como anemia, bronquite, asma, hemorragia, rinite e sinusite. Sua ação expectorante garante o alívio de dores de cabeça, falta de ar e demais incômodos ocasionados por problemas respiratórios, podendo ser utilizado como soro para lavar e umedecer as narinas e vias respiratórias. É indicada também para amenorréia, anemia, nefrites, hidrópsia, bronquite crônica, afecções da pele, afecções do fígado e verminose. Suas propriedades são: emenagoga, carminativa, antihelmíntica, diurética, laxativa e tônica. As partes mais utilizadas da planta são: folhas, frutos e sementes.

 Bucha verde cortada, exibindo polpa e sementes
Poupa do fruto "de vez"
A polpa do fruto da luffa cylindrica madura ou "de vez" é usada popularmente em infusão como purgativa e vermífuga. São 8 gramas para um copo de água fervida. Caules e folhas têm seu uso nas pertubações do fígado, prisão de ventre e anemia. A polpa do fruto da luffa operculata tem também uso popular no combate a sinusite: coloque meia buchinha do norte seca, sem pele e sem sementes em um litro de água, fervendo por dois minutos. Deixe amornar tampado, coe, acrescente 1 colher sopa de sal de cozinha, mexa bem e pingue duas gotas em cada narina a cada quatro horas por no máximo quatro dias.
Cuidado com os efeitos colaterais: em altas doses a Luffa operculatta (buchinha-do-norte) é extremamente tóxica, causando hemorragias e acidentes fatais. Sua utilização não deve se prolongar por mais que o indicado e deve ser interrompido seu uso imediatamente em caso de dor de cabeça. Também é muito utilizada em regiões rurais como purgativo para aves.

Cultivo simples.  A bucha vegetal está muito presente na vida do brasileiro e sempre foi muito fácil encontrá-la nas prateleiras de supermercados, drogarias, feiras livres e armazéns. Porém, o que pouca gente sabe é que seu cultivo também é muito simples e pode ser feito até em casa sem grandes esforços. A planta adaptou-se bem ao clima e solo brasileiro e foi incorporada aos costumes da população. Mesmo nos anos 50, quando as esponjas sintéticas invadiram o mercado a bucha nunca perdeu seu valor. Hoje, o cultivo desta planta se torna mais importante ainda porque, sendo um produto de origem vegetal de fonte renovável, o seu cultivo, uso e descarte não agride o ambiente. Mesmo após a sua utilização a bucha vegetal  pode ser incorporada a uma composteira e ser usada como adubo orgânico.
O cultivo é simples, mas ele exige alguns cuidados para se obter frutos de boa qualidade.  

Pé de bucha Luffa cylindrica trepado em cerca
Cultivo em cerca
Aqui no sudeste brasileiro o plantio se dá com a chegada das chuvas, a partir de outubro e no máximo até dezembro. É uma planta rústica e pouco exigente quanto á fertilidade do solo mas gosta de muito sol e não tolera geadas. Entretanto um plantio em covas bem adubadas resultará em frutos maiores. O espaçamento das covas é de 3x3m e no início do crescimento as capinas são importantes. Costuma-se tutorar com mourões e arame enfileirados, ao longo dos pés para que a planta possa trepar. Outro costume é o de se plantar ao longo de cercas.

pé de Bucha-vegetal (Luffa aegyptiaca) em cerca


borboleta polinizando a flor da bucha

Três meses depois do plantio, surgem às primeiras flores e logo começa a visita dos insetos. Várias espécies de abelhas, vespas, moscas besouros e borboletas  trabalham na polinização, transformando flor em fruto. No quinto mês após o plantio, inicia-se o processo de maturação e a colheita das buchas, que pode estender-se por até quatro meses. Para obter uma bucha clara e com qualidade de fibra, o fruto deve ser colhido antes da maturação completa (de vez), quando a sua casca  começa a amarelar .

Frutos de um pé de Bucha-vegetal (Luffa aegyptiaca) recém colhidas
Algumas das Luffa aegyptiaca que colhi
Tratamento.  Em seguida os frutos deverão ser descascados manualmente e lavados com água corrente e límpida, em tanques adaptados com batedouros para a eliminação da mucilagem e das sementes. Neste estágio de maturação a casca não se desprende com facilidade, por isso é necessário dar umas “batidas” para facilitar a eliminação da casca, mucilagem e sementes. Em seguida as buchas devem ser penduradas ou estendidas para secar em local protegido da poeira e outras possíveis sujeiras e armazenadas em sacolas bem fechadas, longe da umidade.

 Buchas (Luffa aegyptiaca) tratadas e secando
Colhidas maduras, tratadas e postas a secar




Fiz um video detalhado e objetivo sobre esse processo de tratamento e preparo das buchas.





 Fruto seco de Bucha (Luffa aegyptiaca)
Uma bucha já seca 

Os frutos secos no pé  também podem ser aproveitados como bucha embora os frutos maduros colhidos e descascados sejam os melhores para a obtenção da esponja. Quando secos, ao se cortar uma de suas extremidades as numerosas sementes serão facilmente liberadas. Após, a esponja fibrosa deve ficar de molho em água e sabão por um dia, para depois ser lavada e colocada a secar na sombra. Porém quando secam no pé, algumas ficam escurecidas, devido a ocorrência de môfo de e precisam ser tratadas para clarearem. Para isso basta submergi-las durante cerca de 30 minutos ou mais em uma mistura de água com cloro até clarearem, antes de serem levadas para secar.


Bucha seca e descascada, com fibras escurecidas
A Bucha que séca no pé pode ficar com suas fibras escurecidas

Buchas lavadas, alvejadas e secando
Minhas buchas colhidas secas, depois lavadas, alvejadas e secando á sombra















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Referências

https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/21147/1/MariaKalionaraDeFreitasMota_TESE.pdf
http://dica.ufu.brdica-sys/pdf/24504.pdf
https://tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/5352/5/Tese%20-%20Ariel%20Dotto%20Blind.pdf
http://belezadacaatinga.blogspot.com.br/2011/11/bucha-vegetal-luffa-cylindrica.html
http://www.sitiotibau.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=57&Itemid=78
http://diariodebiologia.com/2014/08/quem-usa-bucha-vegetal-para-tomar-banho-pode-estar-cometendo-um-grande-erro/#.VWmWO9JViko
http://www.jardineiro.net/plantas/bucha-luffa-cylindrica.html
http://www.pensamentoverde.com.br/dicas/aprenda-plantar-bucha-vegetal-saiba-sao-beneficios/
http://come-se.blogspot.com.br/2010/06/bucha-paulista-maxixe-do-para-uso.html
http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1051338-2584-3,00.html
https://jurovalendo.com.br/2016/11/16/bucha-vegetal-combate-celulite/
http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/jornal-da-eptv/videos/v/buchas-vegetais-sao-utilizadas-na-confeccao-de-bonecas/2636432/  
www.emater.df.gov.br/wp-content/uploads/2018/06/bucha.doc                                                                                                                     



30 de julho de 2017

PEIXES, CRUSTÁCEOS E ERVAS NO ATELIÊ

                           Aderí á aquaponia doméstica

                       

A poucos anos conheci a revolucionária técnica de criação e cultivo de alimentos chamada de aquaponia, uma união entre aquicultura e hidroponia. A água utilizada na criação dos peixes, rica em nutrientes, é reutilizada no cultivo de plantas e novamente enviada ao tanque dos peixes. Desta maneira a mesma água circula permanentemente enquanto crescem animais e plantas, destinados ao consumo humano. Quando comparada com a agricultura convencional a economia de água é absurdamente enorme, chegando a 98%. A única perda de água desse sistema se deve apenas a perda por evaporação. Num mundo onde a água doce tá cada vez mais rara a aquaponia é uma grande solução na produção de alimentos utilizando pouca água.
Em julho/2016 comecei a construir um sistema aquapônico em casa. Comecei com um sistema de 350 litros, capaz de criar inicialmente  uns 80 lambaris e cultivar algumas verduras e ervas aromáticas para tempero e chá. Começar com um sistema pequeno é mais seguro porque na falta de experiência, se algo der errado o prejuízo será mínimo. Falar de aquaponia é falar em manter um sistema de produção que equilibre tres reinos: o animal, o vegetal e o reino monera (bactérias). Acreditem, isto não é fácil, por menor que seja o sistema.
Minha sobrinha Íris decidiu apresentar a aquaponia como o trabalho de conclusão do seu curso de meio ambiente. Juntamos os intentos e  meses depois, construímos a nossa aquaponia em casa. Um mini sistema de criação e cultivo bastante peculiar.
No link abaixo está a publicação de todo o trabalho, desde a concepção, montagem, testes e os resultados obtidos.
Trabalho de Conclusão de Curso -Meio Ambiente - ÍRIS SUELEN

                                           

 Algumas, das fotos que ilustram o tcc:























16 de maio de 2016

Olho-de-boi ou feijão-do-mar Elas navegam pelos mares


Já faz tempo que quero escrever uma página sobre esta semente fantástica, sempre protelando um pouco mais, esperando dispor de suficiente material informativo e experimental, a respeito desta criatura fascinante. Não é só por seu tamanho tão grande, exótico e diferente de outras sementes, nem porque é usada em vários continentes como um amuleto de proteção pessoal e para algumas simpatias e nem tampouco pela grande quantidade de antioxidantes que possui... E aquela brincadeira de criança?  Alguém esfrega uma semente do olho-de-boi no chão de cimento até ela esquentar muito e encosta na pele de um amigo, de surpresa!  Ái que susto, ái que dor...  enquanto os outros se acabavam de rir...
Contudo o que me deixou assombrado com essa criatura foi outra capacidade particular, uma sábia manobra evolutiva, uma eficaz estratégia para propagar sua espécie ao redor do planeta e outra demonstração soberba da consciência e inteligência dos vegetais.





Esta planta aprendeu a usar o movimento das águas para se transportar e não é á toa que em ingles, um de seus conhecidos nomes é sea bean (feijão do mar). Suas sementes podem passar até 5 anos flutuando por leitos de rios, praias, vagando por correntes oceânicas e indo de um continente á outro quase isenta de perigos. Possue algumas toxinas que a torna indesejável para a maioria dos predadores, mas se for engolida inteira por um animal aquático, a resistente casca que a reveste vai protege-la dos ácidos digestivos e passará intacta pela digestão do bicho. Ao ser evacuada voltará a flutuar e navegar tranquilamente ao sabor das correntezas até se engancharem em algum solo novo, uma beira de praia ou de rio, situados muitas vezes a dezenas de milhares de km. de onde ela nasceu, para só então rebrotarem. Parece inteligência demais para um simples vegetal?
Daí que meu agradecimento ao ôlho-de-boi é grande, pois devo a ele esse novo conhecimento: só quando fui pesquisá-lo é que descobri que uma série de plantas classificadas em diferentes classes, ordens e famílias também faz amplo uso das correntezas para viajar e se propagar pelo mundo. Existe uma comunidade internacional para estudar, divulgar e utilizar as sementes que viajam pelo mar, formada por cientistas, fotógrafos, artesãos entre outros. No dia 14 de maio é comemorado o "dia da consciência da sea bean". 

Navegação marítima de algumas sementes

Fui apresentado (pessoalmente) ao ôlho-de-boi da espécie Mucuna urens por um grande amigo, o mais que artista Walber Barbosa (alquimista e postulante de mago). Acompanhei-o em diversas excurções por matas e ribeirões nos arredores de Resende, recolhendo material para fabricação de arte e artesanato. Recolhíamos palhas, bambús, sementes e raízes de árvores mortas. Em certa ocasião subimos por um trecho de mata, por dentro do ribeirão-do-sertãozinho. Era mes de julho, inverno e estávamos no final do período de estiagem, o ribeirão estava baixinho e ficou bem fácil se deslocar  pela agua e pelas pedras. Caminhávamos a mais de uma hora  pisando cuidadosamente pelo leito de areia e pedras quando de repente o Walber parou, me chamou  e apontou o dedo para cima de nós. Levantei os olhos e logo vi um cacho de aparência bastante extranha mas ao mesmo tempo um tanto atraente. Pendia por um longo fio desde as árvores mais altas  e pairando a cerca de 2 metros de nossas cabeças.

Então saímos da água e subimos pelas pedras da margem e só depois de subir numa grande pedra foi que tive uma visão mais detalhada daquelas estranhas favas. Muitas estavam abertas, expondo várias sementes com cerca de 3 cm. cada uma delas e pareciam prestes a despencar para dentro do ribeirão. Algumas estavam completamente vazias, se desfazendo, tremulando e pairando ao menor vento, dependuradas por aqueles longos fios pingentes.



Passamos então a coletar algumas sementes. O Walber puxou um cacho pelo fio pendente e colocando-o no chão pegou diretamente na semente, sacando-a com vizível cuidado, evitando tocar na casca da vagem: -Tem que tomar cuidado com a casca, esses pelinhos são como pequenos  espinhos e doem bastante. Pouco depois meus dedos também comprovavam a desagradável experiência, quando fui retirar sementes pra mim. Os pelinhos são duros mas se destacam facilmente. Tem cerca de 3 ou 4mm e penetram na pele com facilidade, causando irritação e pequena dor, mas que pode durar mais de um dia.
Em outras excurções, inclusive em outro ribeirão, fomos a mais 2 pés dessa mesma espécie (No Brasil ocorrem 7 espécies da Mucuna Urens, sendo duas endêmicas) e recolhemos uma boa quantidade de sementes em todos eles. Olhando pra aqueles enormes pés emaranhados pelas árvores e pairando por cima do riacho me ocorreu pensar de que maneira, essas sementes que se movimentam usando a correnteza, vieram parar numa beira de riacho tão longe, a 400m de altitude e a centenas de quilômetros do mar? Talvez trazida por humanos ou então nos intestinos de algum grande peixe ou de alguma ave?  Mistérios... o fato é que essa planta (como todas elas, he,he) usa elementos do meio e muitos dos animais disponíveis, para expandir a presença de sua espécie. Do ponto de vista da planta, irônicamente os animais e inclusive os seres humanos é que são os meios...

Minha primeira coleta de ôlho-de-boi (Mucuna urens)


Depois de navegar até um local que lhe propicie as condições mínimas, a semente logo germina, tratando de esticar suas longas ramas por cima do curso dágua, apoiando e se enrolando em árvores da mata ciliar, subindo assim até 10 metros de altura, ou mais. Desse modo ela garante o futuro transporte para as sua próprias sementes. Por aqui, região Sudeste, ela florescerá por volta de janeiro e já estará soltando suas sementes na água a partir de junho, durante a estiagem. Observei que muitas sementes ficam presas nas margens e espalhadas pelo mato. Mas isso se resolverá a partir de novembro, com a chegada das chuvas e o aumento do volume do riacho, arrastando com suas águas a maioria delas. A longa jornada até o oceano só será atingida por algumas e muitas vão terminar no percurso do rio ou na areia de praias mais próximas, o que não é ruim, pois qualquer um desses locais pode conter as condições para que germine. Mas as que tiverem a sorte de alcançar alguma corrente oceânica serão as previlegiadas, poderão navegar até o outro lado do mundo, exportando para muito mais longe o seu precioso gen.

Germinação


Aqui no sudeste florescem entre janeiro e fevereiro...

...e solta as sementes entre junho/agosto.

O início de uma longa jornada!
O olho-de-boi é conhecido internacionalmente como sea-bean, o feijão do mar. No Brasil é chamado também de mucunã, coronha, dinheiro-de-indio, queima-queima, fava-coceira, pó-de-mico e outros. É bom esclarecer que as sementes a que chamamos de ôlho-de-boi pertencem em sua maioria a dois gêneros botânicos. O gênero Mucuna possui em torno de 100 espécies distribuídas nos trópicos e subtrópicos, ao redor do mundo e nos dois hemisférios. Já o gênero Dioclea conta com 50 espécies descritas, a maioria delas na América Central e do Sul, ocorrendo 29 espécies no Brasil, especialmente na Amazônia, sendo 2 espécies endêmicas. 


Mucuna urens. O termo "mucunã" é tupi-guarani e se refere ao grande tamanho do çipó


Nesta postagem trato especificamente do gênero Mucuna. Porém outro dia minha sobrinha Íris chegou da escola trazendo-me uma semente de ôlho-de-boi Dioclea, que ela encontrou no chão, perto de uma matinha no caminho do colégio. Plantei a semente e já tenho uma muda em pleno desenvolvimento. Certamente quando ela começar a produzir vai merecer uma postagem.

A muda de Dioclea

Voltando a Mucuna, outra curiosidade: o famoso e temido pó-de-mico usado pelos foliões nos carnavais do século passado, tem origem na fava desta planta e de suas primas próximas. Raspavam os pelos urticantes da fava seca e juntavam o pózinho para lançá-los sobre suas vítimas, que se danavam numa coçeira sem fim.  Uma enzima chamada mucunaína presente em todo o fruto é a responsável pela terrível reação de coceira e até de dor. Obviamente faz parte da estratégia de defesa da planta contra seus predadores.

Os terríveis pelos urticantes
Mas esta semente faz seu sucesso entre a humanidade de algumas outras maneiras, através de sua beleza e aos poderes místicos que lhe são atribuídos. É  utilizado por povos primitivos desde tempos imemoriais e também por populações rurais de várias partes do mundo, como um efetivo amuleto de proteção! As mais diferentes culturas atribuem a objetos que se assemelham ou representam o olho (olho-de-hórus, olho-de-tigre, olho-de-buda, olho-de-cabra, etc.) grandes poderes de guarda e proteção, para que possam ver e proteger-nos dos perigos que não enxergamos. No Brasil uma tradição do uso do olho-de-boi como protetor  pessoal chegou com os portugueses, que carregam num saquinho de pano preto (patuá) juntamente com arruda, alecrim e sal marinho, ou ainda como um pingente de colar, costume cultivado por povos africanos e ameríndeos. Numa outra maneira é utilizado na proteção de casas e residências, sendo colocado num copo, jarro ou garrafa com agua cristalina, atrás da porta, em cantos estratégicos ou em oratórios. Quando acontece da semente se romper e deixar a agua do copo turva, então sabe-se que aquela residência (ou seus moradores) foram alvo de inveja, cobiça ou demanda mais sinistra.  Então a semente se rompe no ato da proteção. Também é usado na carteira com o intuito de se atrair uma grande fortuna...

Na medicina popular ela é utilizada na forma do pó obtido a partir da semente torrada. Ministrado sempre em pequenas quantidades, atua como calmante nervoso e também como tônico. No semi-árido nordestino é usado no tratamento de cálculos renais e doenças da próstata  e na região amazônica seu uso dominante é no tratamento das sequelas do derrame e na sua prevençaõ,  no tratamento da epilepsia, asma e gripe. O pó é usado ainda como parasiticida e formicida ou aplicado diretamente sobre a pele, atuando contra picada de insetos e bichos venenosos. Pesquisadores constataram que a maioria das sementes do gênero Mucuna (especialmente a Mucuna prurens) possui grandes quantidades do aminoácido L-dopa, uma substância amarga e potencialmente tóxica. Essa substância faz parte do sistema de defesa das plantas contra seus predadores mas, descobriu-se que a L-dopa é utilizada pelo cérebro na elaboração da dopamina, substância neurotransmissora. Desde então essas sementes são estudadas e utilizadas no tratamento do mal de Parkinson. Pesquisas recentes descobriram e isolaram boa quantidade de substâncias antioxidantes nas sementes, ou seja, ela ainda combate os radicais livres, previnindo assim um grande número de doenças e ajudando a retardar o envelhecimento das células. 





http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0304-28472009000100012
http://docplayer.com.br/7065076-1-1-levantamento-botanico-dioclea-violacea-mart-ex-benth-pertence-a-divisao-angiospermae-anthophyta-maior-divisao-do-reino-vegetal-que.html
http://www.seabean.com
http://waynesword.palomar.edu/mucuna.htm
http://rubens-plantasdobrasil.blogspot.com.br/
http://livrodabruxa.blogspot.com.br/2012/12/olho-de-boi.html
http://www.seedsplants.kimeracorporation.com/articles/drift-seeds-semi-galleggianti-semillas-de-deriva.html




Descubra curiosidades surpreendentes sobre a vida e a utilidade das sementes empregadas no GeoAtelier


8 de julho de 2015

Cinamomo -a perigosa árvore de Santa Bárbara


cacho de frutos maduros do cinamomo

Uma árvore originária do sul da Ásia e Austrália e que tem na mesma família membros bastante famosos como o cedro, o mogno e o neem.  Também é conhecida pelos nomes de árvore-santa, jasmim-de-cachorro, jasmim-de-caiena, lírio-da-índia, loureiro-grego, santa-bárbara e outros. Foi disseminada através do globo para fins paisagísticos mas apesar de muito ornamental, acabou se tornando extremamente indesejável nas Américas e outros continentes...

A exótica invasora prefere matas ciliares


semente do cinamomo na mão

Também descobri mais essa semente aqui em Resende, por pura curiosidade e bisbilhotação. Aqueles cachos exóticos de frutinhas amarelas não passam despercebidos, tanto que acabei me achegando pra beira do rio e apanhando algumas delas. Depois de esmagá-las fiquei bastante surpreso com o formato raro de suas sementes, lembrando a forma de  um balão. Este exemplar que descobri na beira do rio Paraíba do Sul não utrapassa os 10 metros mas essa espécie atinge até 20 metros de altura e proporciona uma ótima sombra. Depois descobri que também existe o cinamomo gigante, de até 40 metros e o cinamomo sombrinha, o menor deles, tendo entre 7 e 12 metros de altura.

Frutos e folhas do cinamomo  (Melia azedarach)

Frutos verde, maduro e semente do cinamomo na palma da mão
Fruto verde, maduro e semente
Os problemas com esta espécie estão ligados a alta toxidade de toda a planta e ao fato de se reproduzir facilmente, tendo se tornado uma invasora exótica e uma grande concorrente com as espécies nativas, especialmente em ambiente de mata ciliar. Suas folhas e seus frutos apresentam alcalóides neurotóxicos e saponinas que quando ingeridos provocam salivação, náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarréia intensa e até a depressão do sistema nervoso central. Esses sintomas atingem a maioria dos mamíferos mas as aves parecem imunes a eles e até se alimentam desses frutos. Grande parte dos acidentes ocorrem com crianças, que se vêem facilmente tentadas a comer as belas frutinhas, razão pela qual não deve ser cultivada próxima a parques infantis e playgrounds.

cacho de frutos do cinamomo  com rio ao fundo
...na beira do rio Paraíba do Sul.
E como tudo o que é ruim também é muito bom, boa parte dessas substâncias tóxicas tem sido utilizadas como inseticidas contra carrapatos e as larvas do mosquito da dengue. Outra vantagem é o seu rápido crescimento, que pode chegar aos 3,5 metros por ano e também por ser descídua, perde suas folhas na estação de frio e seca e assim deixando passar mais luz solar, enquanto na estação chuvosa e quente proporciona ótimo sombreamento.

galhos, folhas e frutos do cinamomo

Qualidades e defeitos á parte, vamos ao que realmente me interessa nessa árvore, as suas sementes. Seu formato é extremamente singular, nunca ví uma semente tão ornamental, parecendo um balão quando vista de lado e com uma estrela, se vista de cima, incuindo o bônus de ser extremamente dura. Em minha pesquisa descobri que no passado essas sementinhas já foram muito utilizadas por religiosos na confecção de rosários e terços.

Frutos colhidos do cinamomo  (Melia azedarach)

Frutos colhidos do cinamomo, dentro de um balde

Colhi uma boa quantidade de frutos e como eles são bem moles consegui despolpá-los com certa facilidade esfregando contra uma peneira grossa, lavando com bastante água e por último retirando manualmente as cascas. Depois de secos os "balõezinhos" ficam com a cor esbranquiçada e textura aveludada, com a vantagem de já serem naturalmente furados.

sementes despolpadas do cinamomo, secando em peneira
Os "balõezinhos" já são furados


Mais informações sobre cinamomo:
http://www.notisul.com.br/n/colunas/cinamomo_elegante_porem_toxica-22670
http://flores.culturamix.com/informacoes/cinamomo
http://www.sementescaicara.com/ImagensDiversas/file/cinamomo.pdf





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